02/08/2017 MEIO-AMBIENTE

Por que a carcinicultura é uma fábrica de manguezais?

Estudo analisa e compara imagens aéreas de 1978 e 2004

Os manguezais do nordeste brasileiro continuam em processo de crescimento nas regiões em que se instalaram fazendas de carcinicultura nas suas proximidades. Esse fato foi comprovado cientificamente pela primeira vez por pesquisadores da Universidade do Ceará, do Laboratório de Ciências do Mar (Labomar) ao compararem imagens disponíveis no ano de 1978 coletadas por sensoriamento remoto, com novas imagens obtidas até o ano de 2004, geradas por sensores Landsat E Ikonos.

Nesse estudo foram contemplados os Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco e os resultados demonstraram um significativo aumento médio das áreas de seus manguezais da ordem de 35,1 %. Resultados esses que vieram corroborar a tese de que as águas dos viveiros da carcinicultura, ricas em nutrientes e lançadas nos estuários ao final dos cultivos, irrigariam os manguezais nutrindo as suas árvores com nitrogênio, magnésio, cálcio, ferro, potássio, molibdênio, boro e cobalto, dentre outros nutrientes, contribuindo para sua expansão.

Apesar da contundência dos fatos relatados não constatamos qualquer sensibilidade por parte dos órgãos ambientais a esses impactos positivos das operacionalizações da carcinicultura, pois nunca houve qualquer manifestação de crédito aos resultados obtidos. Ao contrário, parece haver um sentimento permanente de contrariedade ao funcionamento dessa atividade econômica que emprega milhares de pessoas nas regiões mais carentes, e interage positivamente com o ambiente no qual se implanta. E vou contar a vocês uma história que corrobora essa suspeita.

A Trapiche é uma fazenda de carcinicultura com cerca de setenta hectares de viveiros localizada no município de Macau, no Rio Grande do Norte, à margem esquerda do estuário do rio Açu. A área de apicum na qual foi instalada (hipersalina), antes de sua implantação, sempre teve um chão esbranquiçado pelo sal que se depositava com os movimentos das grandes marés. O rio Açu quando transbordava de seu leito formava estreitos canais que se enraizavam nas bordas da área (ver seta na foto abaixo), e nas suas margens tentavam se desenvolver espécies vegetais halófitas, provavelmente sem muito sucesso; tão inóspito era o ambiente que nas suas proximidades crescera ao longo do século XX, com porte mais significativo, apenas uma pequena mancha triangular de pés de mangues, como se pode observar na próxima foto, de 1988, em preto e branco.

foto 01

Pequenos canais, indicados pela seta, e pequena mancha triangular de mangue circundado em vermelho (Foto: divulgação)

A Trapiche foi construída nos primeiros anos da década de 2000. Na foto abaixo, do ano de 2005, são mostrados os seus viveiros em fase inicial de operacionalização. Mas também podem ser observados outros eventos que serão de grande importância para a nossa história: com os diques construídos, os estreitos canais (ver seta) foram separados do rio, como se pode ver no viveiro seco, de 4 hectares; a pequena mancha triangular de mangues continua com suas dimensões quase inalteradas desde décadas atrás (com uma pequena diminuição); e inexistem outros vestígios dessa vegetação nas cercanias dos viveiros.

foto 02

Os estreitos canais aprisionados no viveiro (ver seta); a mancha triangular de mangue com dimensões inalteradas, em 2005; e não há flagrante de outra vegetação de mangue (Foto: divulgação)

A Trapiche seguiu o seu ritmo. As águas de seus viveiros, ricas em nutrientes, fertilizavam as águas pobres do estuário e em consequência os mangues brotavam vicejando ao redor da Fazenda, nas zonas de influência das águas drenadas,

No ano de 2010 a paisagem estava completamente transformada em comparação aos anos anteriores à operacionalização da Trapiche. Como se pode constatar na imagem abaixo, a pequena mancha triangular de mangues aumentara cerca de quase 60 % o seu tamanho, e em toda a extensão que margeava os paredões dos viveiros crescera um comprido e frondoso manguezal (ver setas) formando um bosque salgado de quase cinco hectares. A carcinicultura revelava mais uma de suas funções: ela fabricava manguezais.

foto 03

Triângulo de manguezal duplicado com relação às décadas anteriores sem a fazenda, e surgimento da vegetação de mangue em toda a extensão margeante dos paredões (indicados pelas setas) (Foto: divulgação)


Mas, agora vem o surpreendente epílogo de nossa história. Enquanto a Trapiche fabricava manguezais e abraçava o meio ambiente tornando-o mais robusto e saudável, em 2016 técnicos do órgão ambiental do Estado acusaram a empresa de ter desmatado cerca de 4,62 hectares de mangues durante a construção de seus viveiros, e teria que replantá-los. Notificaram, solicitaram um PRAD, e por fim judicializaram o processo.

Sem qualquer discussão, mas em nenhum momento da implantação da Fazenda se procedeu qualquer tipo de desmatamento. E onde estariam localizados esses mangues supostamente desmatados? Segundo eles, o manguezal desmatado seria aquele enraizado de estreitos canais transbordados do Açu (vistos na primeira e segunda fotos). Não era.

Um órgão ambiental não deveria estar buscando minudências para incriminar uma atividade econômica, ademais quando suas ações estão amparadas por lei em vigência. Na verdade ele desempenharia melhor o seu papel se acompanhasse a evolução dos manguezais localizados nas proximidades dos polos camaroneiros, pois assim concluiria ser mais produtivo incentivar as fazendas que expandem as áreas de mangue com suas águas do que puni-las.

E por qual razão punir a Trapiche devido a conjecturados quatro hectares de mangues desmatados?, se a própria lei vigente não acolhe qualquer punição? E ainda quando se comprova que a própria Trapiche amplificou em quase 60 % o manguezal presente nas suas terras halófilas, além de ter fabricado bem mais hectares de mangues, onde eles jamais existiram, do que a quantidade exigida de replantio?

Fonte: Iveraldo Guimarães, adaptado pela equipe feed&food.