23/11/2017 ESPECIAL GTPS 10 ANOS

Em ano atípico, a confiança do consumidor está abalada e a culpa é de quem?

Setor não teve fardo de acontecidos, mas é sua responsabilidade se comunicar

Luma Bonvino, de São Paulo (SP)

luma@ciasullieditores.com.br

Em qual aspecto as crises evidenciadas do setor neste ano foram mais prejudiciais? A pergunta traz à tona as turbulências vividas em 2017. A essa altura do campeonato, já se encerrando para os acréscimos do fim do jogo, o tema parece envelhecido, resolvido e engavetado. Porém, na cabeça de pecuaristas, que sofreram não com um, mas com vários escândalos do setor, a lembrança permanece viva e em forma de ensinamento para os próximos passos da organização da pecuária.

O questionamento foi levantando durante o Workshop do Grupo da Pecuária Sustentável (GTPS, São Paulo/SP), parte integrante do cronograma oficial da InterCorte, etapa São Paulo (SP), que esteve em passagem na capital “selva de pedra” para se tornar pasto fértil de debates. Entre as opções a se responder tal pergunta estavam a relação entre os elos da cadeia, o preço da carne, o preço da arroba e a confiança do consumidor. Esse último responsável por 44,86% das respostas.

"Uma notícia positiva de proteína animal impacta oito pessoas. Uma notícia negativa impacta 3380 pessoas"

Pronto, ao menos em uma sala de palestras, quase 50% das pessoas identificaram a maior problemática dos eventos. Dado o obstáculo, uma solução: tornar eficiente a comunicação de todos os elos da cadeia, estrutura essa por sinal como segunda citação (29,91%) mais aponta pelas votações. “A confiança do setor foi mais abalada, mas também, fiquei em dúvida sobre o relacionamento com os elos da cadeia. Hoje o agronegócio passa por uma segunda fase, a chamada era 4.0. E devemos estar atentos a isso”, inicia o diretor-executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (São Paulo/SP), Luis Cornacchioni, antecipado que melhorar a imagem do País é um desafio e não será fácil resolver essa tarefa.

Para Cleber Soares, da Embrapa Gado de Corte (Campo Grande/MS), também presente no painel, o principal gargalo na pecuária é coordenar as cadeias. Isso também passa pela entrada da comunicação, o qual devia ser intitulado como quarto poder. “Uma notícia positiva de proteína animal impactada oito pessoas. Uma notícia negativa impacta 3380 pessoas. A solução? Integração. A sociedade não nos conhece e reconhece". O profissional ainda exemplifica, com base em outra pesquisa, a relação da população com o agro. Em questionamento sobre a interação entre tecnologia e alimento, apenas 23% identifica a ligação com o agronegócio. Quando a mesma pergunta foi direcionada à saúde, o resultado foi para 82%. “Uma única tecnologia da saúde é brasileira. No agro quantas tecnologias tem nossa marca? Quase 100%! Percebe a distância da população? Por isso, por muitos, somos vistos no papel de vilão”, menciona e acrescenta: “Atores chaves para protagonizar esse movimento somos todos nós”.

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"Gostaria de ver a comunicação como o quarto pilar da sustentabilidade", cita Cleber Soares durante painel “Desafios da pecuária brasileira e desenvolvimento sustentável” (Foto: feed&food)

O especialista em marketing e Professor/Coordenador adjunto do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM - Escola Superior de Propaganda e Marketing, Coriolano Xavier, acredita que é preciso construir, junto à proteína animal, o que ele chama por licença social. “Alimento nunca foi tão seguro e disponível, mas vivemos um momento em que mais se questiona e onde as pessoas estão céticas em relação às suas informações. Uma mistura de céu e inferno. Crença que as pessoas formam e constroem suas percepções. Por isso, a empresa que está atuando em conformidade com as expectativas sociais, conquista esse espaço com uma ‘fiscalização menor’”, destaca. Para ele, um consumidor consciente dá cada vez mais oportunidade para contar as narrativas do agronegócio, que precisam ser expandidas.

A dificuldade de comunicação no setor não é temática nova. Mas, a discussão levantada teve como estopim a marca Brasil publicada no mundo com associação à escândalos políticos e até sanitários. Isso, modificou o ambiente econômico da pecuária nacional. “Tivemos um fator esse ano, que em 30 anos em que acompanho o segmento nunca tinha visto. Fatores aquém do quesito preço. O escândalo promoveu excesso de oferta no mercado interno e o mercado externo não absorvendo, mesmo querendo. Isso não é um essencialmente um problema econômico, mas político”, insere o professor da Esalq/USP, responsável pelo Cepea, Sérgio de Zen.

De acordo com o profissional, atípico, o ano importou uma crise que não nos pertence. Apesar do fatídico Carne Fraca, isso não lhe assustou, porque não tem quem ofereça essa oferta de carne aos compradores. Se fosse em outro tipo de proteína, o risco seria bem maior, com risco elevado. De todo modo, além desse processo mercadológico, para De Zen a imagem do produtor de boi extrativista tem que mudar. “O pecuarista é o melhor empresário do agronegócio. Quando os negócios vão bem, emprega-se e paga-se muito bem”, finaliza.

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Encontro também comemorou os 10 anos de atuação do GTPS, que surgiu em 2007 como a primeira mesa redonda criada para discutir a produção de carne sustentável (Foto: feed&food)

A história de 10 anos do GTPS comprova que "conseguimos produzir e avançar com a pecuária de forma consciente", reforçou o presidente da Associação, Ruy Fachini Filho (Foto: feed&food)