01/12/2017 BOI VERDE

Até quando campeões da sustentabilidade sem reconhecimento?

A história manchada do agro brasileiro não deixa ver os 60% da preservação

Luma Bonvino, de Campinas (SP)

luma@ciasullieditores.com.br

“Pecuária é responsável por mais de 80% do desmatamento no Brasil”. “Pecuária e desmatamento: uma análise das principais causas diretas do desmatamento na Amazônia”. “A farra do boi na Amazônia”. Manchetes como essa são mais comuns do que a totalidade da cadeia produtiva do agronegócio gostaria de ler. Uma nota na revista, um depoimento compartilhável na internet, uma reportagem em horário nobre no Jornal Nacional. Não é de hoje que o agronegócio – e mais particularmente a pecuária – é a vilã da produção sustentável no Brasil. Arraigado no subconsciente da população brasileira, muito desses que consomem o conteúdo e fazem dessa informação um viral mal sabem que moram em um dos países mais sustentáveis do mundo, quando se fala em produção agropecuária.

Faça um teste você. Entre no buscar mais famoso globalmente. Se preferir, pode usar uma guia anônima, se precavendo de qualquer interferência em cruzamento de seu consumo de dados. Brinque com as palavras chaves de seu negócio e obtenha a informação em ranking. Fizemos o teste com a “pecuária é responsável por”. Como mídia especializada no agronegócio sabemos que a pecuária, dentro do contexto do agronegócio, é responsável por 1/3 do PIB Nacional, também 46 mil vagas de emprego em um mês, ainda pela carne de qualidade exportada a diversos países do mundo, com crescimento de 135% no valor de suas exportações na última década. Porém, não é nenhuma das informações acima que o buscador mostra em sua primeira e mais importante página. São manchetes ou números – como retratos acima –, não revelando o poderio desse setor econômico.

“Em nenhum momento falo que precisamos desmatar, mas para olhar o quanto fizemos e estamos fazendo no sentido de ocupação e uso de terras”

É verdade, nem sempre foi assim. A atividade passou por períodos de adaptação e entendimento do setor produtivo até se encaixar no que se considera correto no eixo produzir e preservar. Nesse processo que saiu do errado para alcançar o alto nível de rigorosidade, muitos produtores deixaram esse caminho, concedendo ao Brasil – ao lado de associações, guias práticos, influenciadores e o suporte da pesquisa e tecnologia – o título de produção sustentável.

Uma dessas ferramentas de transformação e essencialmente mensuração é a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa, Brasília/DF). Durante o décimo simpósio da Associação Brasileira da Indústria de Suplementos Minerais (Asbram, São Paulo/SP), o chefe da Embrapa Monitoramento por Satélite (Campinas/SP), Evaristo Eduardo de Miranda, mostrou números que deveriam “ser expostos durante a novela das 21h da Globo”, como mencionou um dos ouvintes. Ou seja, a verdade por trás da produção verde nacional.

O profissional revelou que, dentro desse tema, inteligência e gestão territorial trabalham com três conceitos inseparáveis, mas inconfundíveis: atribuição das terras no Brasil, ocupação das terras no Brasil e uso de terras no Brasil.

Sobre a atribuição das terras, parte-se de um conceito de área territorial com 851.576.705 hectares. Ao longo dessa faixa territorial, 1.871 unidades de conservação, nas esferas federais, estaduais e municipais, com 18% do Brasil. Nesse mesmo cenário verde e amarelo, 177.956.05 hectares contemplando 600 unidades de terras indígenas, 14% do País. Diante dos dados, fornecidos pela Embrapa e Ministério da Agricultura, Pecuária ou Abastecimento, o palestrante somou os dois grupos de áreas protegidas – conservação e indígena – chegando a conclusão de 257.257.508 hectares, agrupando 2.471 de unidades características, representando 30,2% do Brasil.

E como se esses relatórios já não bastassem, se somarmos áreas legalmente distribuídas para unidades de conservação, terras indígenas, assentamentos de reforma agrária (9.349 mil), quilombos e reservas militares (68) são 12.184 áreas, 315.924.844 hectares e 37,1% de Brasil. Um histórico que não, não é para qualquer nação. Para se ter ideia, números bem superiores a outros competidores do mercado internacional. Austrália, China, Argentina, Estados Unidos, Rússia, Canadá e Índia nem se aproximam.

GRAFICO SUSTENTABILIDADE - DIVULGACAO

Ainda assim, como somos vistos? Os vilões da floresta, mas carregando debaixo dos braços um dos Códigos Florestais mais rígidos do mundo. “Qual é o limite?”, questiona De Miranda acrescentando que sempre irão surgir demandas adicionais por atribuições de terras, como novas unidades de conservação, terras indígenas, reforma agrária, infraestrutura logística e assim por diante.

Em continuidade ao tripé impossível de se separar, está a ocupação das terras, que se difere do uso. A primeira parte refere-se, de modo generalista, às áreas urbanizadas e a outra, quando se trata do uso de terras agrícolas, são os sistemas de produção e tecnologia, incluindo pastagens nativas e plantas, lavouras, florestas plantas e vegetação preservadas, como APP.

Desse retrato, ele também desenha a “pizza” completa. Evaristo de Miranda mostra essa receita, onde o Brasil possui 13,1% de vegetação nativa em unidades de conservação, somado a 13,8% de vegetação nativa em terras indígenas, com 18,9% de vegetação nativa em terras devolutivas e não cadastradas, mais 20,5% de vegetação preservada nos imóveis rurais, outros 8% de pastagens nativas, 13,2% nas pastagens plantadas, finalizando com 9% de lavouras e florestas plantadas com, apenas 3,5% de cidades, infraestrutura e outros.

OCUPACAO DE TERRAS - DIVULGACAO

Para conferir outros números, com a apresentação na íntegra,  clique aqui (Imagem: reprodução)

Os algoritmos, de encher os olhos, não têm como objetivo regressão, reforça o profissional. “Em nenhum momento falo em precisamos desmatar, mas para olhar o quanto fizemos e estamos fazendo no sentido de ocupação e uso de terras”, menciona.

Por A+B, há a comprovação de que é preciso mudar além da primeira página do Google, mas também a mentalidade de brasileiros e compradores globais. Com participação internacional, o presidente da International Feed Industry Federation (IFIF), Roberto Betancourt, conta que os europeus dizem o que o Brasil está fazendo é lindo, mas não ganharão nada com isso, e teve esse retorno em apresentação recente realizada na FAO. “Eu, como parte da produção rural brasileira, quero que o Brasil ganhe porque ele está produzindo e preservando. Somos líderes na pecuária, pujantes, mas não estamos participando da regra do jogo, não opinamos em que o mundo vai valorizar, estamos a reboque”, critica.

De acordo com ele, os europeus – citados enquanto líderes quando o assunto é mercado internacional – estabelecem o que será valorizado quando o tema for sustentabilidade ambiental, o que não inclui sistema a pasto e APP, elenca como exemplo. “Nossa pecuária tem que ser valorizada sim, e nossa carne bem remunerada. Para conseguir esse objetivo, temos que participar da elaboração das regras. No início do próximo ano traremos o banco de dados padrão em sustentabilidade que se chama GFLI e as entidades devem se unir para mostrar as métricas e exibir que nós somos os campeões globais de sustentabilidade”, encerra.

Evaristo de Miranda explanou sobre sustentabilidade e seus limites (Foto: Celso Menezes/divulgação)